terça-feira, 27 de abril de 2010

Cérebro "desliga" em resposta a oração de cura


Cérebro "desliga" em resposta a oração de cura


da New Scientist

Quando as pessoas se deixam seduzir pela oração de uma figura carismática, áreas do cérebro responsáveis pelo ceticismo e vigilância tornam-se menos ativas. Essa é a conclusão de um estudo que analisou a reposta das pessoas a orações proclamadas por alguém que supostamente possui poderes de cura divina.

Para identificar os processos cerebrais subjacentes à influência de pessoas carismáticos, o estudioso Uffe Schjodt, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e seus colegas procuraram cristãos pentecostais, que acreditam que algumas pessoas têm poderes divinos de cura, sabedoria e profecia.

Utilizando ressonância magnética funcional, o pesquisador e seus colegas realizaram uma varredura nos cérebros de 20 pentecostais e 20 não crentes, enquanto tocavam orações gravadas. Os voluntários foram informados de que seis das orações foram lidas por um não cristão, seis por um cristão comum e seis por um curandeiro. Na realidade, todas foram lidas por cristão comuns.

A atividade cerebral monitorada pelos pesquisadores mudou apenas nos voluntários devotos, em resposta às orações. Partes do córtex pré-frontal e do córtex cingulado anterior, que desempenham papeis fundamentais de vigilância e ceticismo ao julgar a verdade e a importância do que as pessoas dizem, foram desativadas enquanto as orações ouvidas eram dos supostos curandeiros. As atividades diminuíram em menor medida quando no alto-falante falava, supostamente, um cristão normal.

O pesquisador disse que isso explica porque alguns indivíduos podem exercer mais influência sobre os outros, e conclui que a habilidade para isso depende fortemente de noções preconcebidas de sua autoridade e confiabilidade.

Não está claro se os resultados se estendem a líderes religiosos, mas Schodt especula que regiões do cérebro podem ser desativadas de forma semelhante em resposta a médicos, pais e políticos.

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u726691.shtml

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Deus e negócios

Meu amigo Jader (jadersandrade@yahoo.com.br) divulgou o texto abaixo, publicado originalmente no Portal da Revista Exame. Parece-me muito interessante e apropriado para os tempos atuais.


Deus e negócios

Dá para misturar espiritualidade e riqueza? A consultora americana diz que sim. E que isso é bom e ajuda a melhorar a motivação e a produtividade nas empresas
Por  Suzana Naiditch  | 25.07.2001
Revista EXAME - 


No livro QS Inteligência Espiritual, lançado no ano passado, a física e filósofa norte-americana Dana Zohar aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas. O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Afirma Dana: "A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos em uma cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".
Aos 57 anos, Dana vive na Inglaterra com o marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e com dois filhos adolescentes. Formada em física pela Universidade Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualmente leciona na universidade inglesa de Oxford. É autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para o português. QS Inteligência Espiritual já foi editado em 27 idiomas, incluindo o português (no Brasil, pela Record). Dana tem sido procurada por grandes companhias interessadas em desenvolver o quociente espiritual de seus funcionários e dar mais sentido ao seu trabalho. Ela falou a EXAME em Porto Alegre durante o 300 Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO), organização fundada na Suíça, em 1971, que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo. Eis os principais trechos da entrevista:
O que é inteligência espiritual?
É uma terceira inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.
Há quanto tempo a senhora trabalha com inteligência espiritual?
Toda a minha vida, praticamente, já que perdi a fé na religião (cristianismo) aos 11 anos de idade e sempre procurei um meio de encontrar realização espiritual fora dos domínios da religião. Meu trabalho mais recente sobre QS tem quatro anos e foi produzido ao mesmo tempo em que cientistas começaram a divulgar pesquisas que mostram uma base neurológica para as experiências espirituais e místicas.
De que modo essas pesquisas confirmam suas idéias sobre a terceira inteligência?
Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experiência espiritual. Tudo que influencia a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais. Um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual. Outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.
Qual a diferença entre QE e QS?
É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como eu reajo a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na história da humanidade.
Por que somente agora o mundo corporativo se preocupa com isso?
O mundo dos negócios atravessa uma crise de sustentabilidade. Suas atitudes e práticas atuais, centradas apenas em dinheiro, estão devastando o meio ambiente, consumindo recursos finitos, criando desigualdade global, conduzindo a uma crise de liderança nas empresas e destruindo a saúde e o moral das pessoas que trabalham ou cujas vidas são afetadas por elas. Espiritualidade nos negócios significa simplesmente trabalhar com um sentido mais profundo de significado e propósito na comunidade e no mundo, tendo uma perspectiva mais ampla, inspirando seus funcionários. Nós não sabemos mais o que é realmente a vida. Não sabemos qual é o jogo que jogamos nem quais são as regras. Falta-nos um sentido profundo de objetivos e valores fundamentais. Essa crise de significado é a causa principal do estresse na vida moderna e também das doenças.
A busca de sentido é a principal motivação do homem. Quando essa necessidade deixa de ser satisfeita, a vida nos parece vazia. No mundo moderno, a maioria das pessoas não está atendendo a essa necessidade.
Como se pode detectar os sintomas dessa crise na vida corporativa?
Desde o surgimento do capitalismo, há 200 anos, tudo que importa no mundo dos negócios é o lucro imediato. Isso criou uma cultura corporativa destituída de significado e de valores mais profundos. Nós apenas queremos mais dinheiro. Mas para quê? Para quem? Trabalhamos para consumir. É uma vida sem sentido. Isso afeta o moral, tanto dos dirigentes quanto dos empregados, sua produtividade e criatividade. E também afasta dos negócios preocupações mais amplas com o meio ambiente, a comunidade, o planeta e a sustentabilidade. O mundo corporativo é um monstro que se autodestrói porque lhe falta uma estrutura mais ampla de significado, valores e propósitos fundamentais. Há uma profunda relação entre a crise da sociedade moderna e o baixo desenvolvimento da nossa inteligência espiritual.
Quais companhias a têm chamado para desenvolver trabalhos que busquem elevar o quociente espiritual de dirigentes e empregados?
Não posso citar seus nomes, mas tenho atendido a bancos, financeiras, empresas de telecomunicações, de petróleo e montadoras de automóveis. Trabalhamos juntos para adquirir a compreensão de que as atitudes e práticas existentes são insustentáveis e como as empresas podem desenvolver tanto a sustentabilidade como os serviços cultivando as dez qualidades do quociente espiritual (veja quadro na pág. 79)
A senhora poderia citar exemplos de companhias ou empresários que estejam buscando mais sentido em seu trabalho?
Há muitos exemplos. Mats Lederhausen, o vice-presidente de estratégia global do McDonald s, é um deles. Sua função na empresa é ser a voz de protesto e consciência, sacudindo as pessoas, agitando o barco. Ele iniciou projetos como a distribuição gratuita de vacinas antipólio na África, a luta contra plantações geneticamente modificadas, o uso de gaiolas maiores para galinhas e um trabalho para restaurar ecossistemas danificados.
Outro exemplo é a Amul, empresa da Índia que distribui para o Estado de Gujarat o leite de 10 000 cooperativas. A Amul compra todos os dias o leite de camponeses que possuem apenas uma vaca, permitindo que indivíduos pobres possam competir com grandes fazendeiros. O Banco de Desenvolvimento da Ásia se dedica à erradicação da pobreza com programas de micro-crédito para pessoas muito pobres.
A British Petroleum adotou um novo slogan, "Além do Petróleo", e está colocando o grosso de seus fundos de pesquisa no desenvolvimento de tecnologias energéticas alternativas, menos agressivas ao meio ambiente. John Browne, o CEO da companhia, conseguiu aumentar o valor das ações enfatizando relações de longo prazo entre sua empresa e a sociedade.
Como é o líder espiritualmente inteligente?
É um líder inspirado pelo desejo de servir, uma pessoa responsável por trazer visão e valores mais altos aos demais e por lhes mostrar como usá-los. É uma pessoa que inspira as outras. Gente como o Dalai Lama, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi. No mundo dos negócios, Richard Branson, da Virgin, é um líder espiritualmente inteligente. Ele está muito preocupado com o meio ambiente e a comunidade. É muito espontâneo, tem visão e valores, tem perspectivas amplas.
Como se pode desenvolver a inteligência espiritual?
Tomando consciência das dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes e trabalhando para desenvolvê-las. Procurando mais o porquê e as conexões entre as coisas, trazendo para a superfície as suposições que fazemos sobre o sentido delas, tornando-nos mais reflexivos, assumindo responsabilidades, sendo honestos conosco mesmos e mais corajosos. Tornado-nos conscientes de onde estamos, quais são nossas motivações mais profundas. Identificando e eliminando obstáculos. Examinando as numerosas possibilidades, comprometendo-nos com um caminho e permanecendo conscientes de que são muitos os caminhos.
De que forma as pessoas espiritualmente inteligentes podem beneficiar as corporações?
As pessoas com QS elevado querem sempre fazer mais do que se espera delas. Algo para além da empresa. Quem trabalha unicamente por dinheiro não faz o melhor que pode. Nas empresas em que se busca desenvolver espiritualmente os funcionários, a produtividade aumenta porque eles ficam mais motivados, mais criativos e menos estressados. As pessoas dão tudo de si quando se procura um objetivo mais elevado. Se as organizações derem espaço para as pessoas fazerem algo mais, se souberem desenvolver em cada indivíduo sua inteligência espiritual, terão mais resultados e mais rapidamente.
A senhora diz que o capitalismo como se conhece hoje está com os dias contados, mas que um novo capitalismo está nascendo. Como ficam as empresas com essa nova perspectiva?
Está surgindo um novo tipo de empresa. É uma empresa responsável. No novo capitalismo sobreviverão as companhias que têm visão de longo prazo, que se preocupam com o planeta, em desenvolver as pessoas que nelas trabalham. Que se preocupam, sim, com o lucro, mas que querem ganhar dinheiro para desenvolver as comunidades em que atuam, proteger o meio ambiente, propagar educação e saúde.
Fonte:

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Clóvis Moura: a sua militância e intelectualidade

Consciência Negra


Clóvis Moura: a sua militância e intelectualidade

Debate Cedem/Unesp



Rebeliões da Senzala (Edições Zumbi – 1959, São Paulo) de Clóvis Moura (1925-2003), livro que completa cinquenta anos de publicação, será o centro do debate no próximo dia 19 de novembro, quinta-feira às 18h30, promovido pelo CEDEM – Centro de Documentação e Memória da UNESP.



Enquanto a maioria dos estudiosos pertencente à geração do autor procurava em suas pesquisas desvendar o lado etnográfico e folclórico do negro, Clóvis Moura dirigiu a sua pesquisa para o campo histórico, pois, para ele, era o que poderia explicar a questão do negro no Brasil. Caio Prado Junior (1907-1990) em carta endereçada ao autor se referiu ao livro como “um ponto de partida, que nos faltava, para a sistematização e compreensão geral de um assunto de considerável importância para nossa historiografia”.



A obra analisa as formas mais destacadas de resistência dos escravos, como: os quilombos, as insurreições e as guerrilhas que se estenderam até a abolição da escravatura. Além disso, apesar de ser a documentação esparsa e pouco acessível, em quase todas as regiões brasileiras, mostra como essas lutas foram muito mais profundas e duradouras do que pretendem alguns pesquisadores que veem no escravo negro um elemento dócil.



Uma vez que no dia 20 de novembro celebramos na cidade de São Paulo o feriado do Dia Nacional da Consciência Negra, dedicado à reflexão da inserção do negro na sociedade brasileira, faz-se importante nos unirmos para uma breve discussão sobre a questão étnico-racial e seus desdobramentos na conjuntura do país em que vivemos. Esta data em que se rememora o assassinato de Zumbi dos Palmares tem o sentido de evocação de um passado de luta e resistência diante da aparente impotência gerada pela escravidão na colônia portuguesa e esta efeméride contrapõe-se à comemoração da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, data que por muito tempo representou a redenção dos escravos.



Debatedores



Soraya Moura

Historiadora - USP

Pesquisadora e Coordenadora de Projetos do Memorial do Imigrante

Filha de Clóvis Moura



João Baptista Borges Pereira

Doutor em Antropologia - USP, Professor da USP e do Mackenzie

Presidente da Comissão Permanente de Políticas Públicas para a População Negra da USP



Mediadora

Célia Reis Camargo

Doutora em História Social - UNESP

Professora do Depto de História - UNESP/Assis

Coordenadora do CEDEM



PARTICIPE E CONVIDE OS SEUS AMIGOS!



Inscrições gratuitas c/ Sandra Santos pelo e-mail: ssantos@cedem.unesp.br

Local: CEDEM/UNESP – Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé)

Quando: 19/11/09 às 18h30 – 5ª feira – (11) 3105 - 9903 - www.cedem.unesp.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Igreja Luterana da Suécia autoriza casamentos homossexuais

Igreja Luterana da Suécia autoriza casamentos homossexuais

da Efe, em Copenhague

A Igreja Luterana da Suécia, que conta com 73% da população do país como adeptos, aprovou nesta quinta-feira a autorização da realização de casamentos entre homossexuais em seus templos a partir do dia 1º de novembro.

Os membros da assembleia eclesiástica, organismo superior da Igreja Luterana sueca, aprovaram nesta quinta-feira por maioria absoluta uma proposta da direção para permitir este tipo de cerimônia, uma decisão esperada após meses de discussões.

A proposta contou com o apoio de 176 do total dos 249 votos, mais de 70% da assembleia.

A decisão das autoridades eclesiásticas suecas acontece seis meses depois que o Parlamento aprovou a chamada lei do casamento neutro, que permite que homossexuais formalizem suas relações em uma cerimônia civil.

Os casais gays só devem cumprir com um requisito para poderem se casar no civil, o mesmo que para heterossexuais. Eles devem apresentar um certificado oficial que prove que nenhum dos dois é menor de idade ou já está casado, e que não são parentes de primeiro grau.

INFORMOU, em 22/10/2009 - 11h30:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u641659.shtml

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Grande Família

Pluralidade

A Grande Família

Meu antigo terapeuta e eu estamos organizando a formação de um grupo para ler e discutir textos relativos à homossexualidade. A proposta é algo que possa ser partilhado por gays e não-gays – e não a de fazermos mais uma espécie de dinâmica de grupo. Como de praxe, assumi a “secretaria” da atividade, propondo-me a articular as pessoas e prospectar os textos.

Pensando que seria muito complicado começar os trabalhos com livros, pois demandam tempo de leitura e isso poderia ser um desestimulador inicial, optei por artigos: textos mais concisos e fáceis de serem distribuídos. Assim, minha busca começou pelo Google Acadêmico, que disponibiliza gratuitamente textos publicados em periódicos brasileiros e estrangeiros. Para a palavra-chave “homossexualidade” a pesquisa encontrou uma quantidade astronômica de referências. Entre tantas, e em sintonia com nossa charmosa editora, chamou minha atenção as muitas indicações para os temas “família homossexual” e “direito de família homossexual”.

Já li algumas coisas e constatei que, por conta do impasse legislativo, o direito homossexual está sendo gestado nos tribunais, através de jurisprudência. Os juízes, respaldados pelo poder de decidir diante da realidade, têm construído um arcabouço legal que, aos poucos, está fazendo o serviço dos nobres legisladores, a ponto de um jurista ter afirmado que os atuais projetos em discussão pelos políticos já estão obsoletos. Exemplos são os casos de homens e mulheres gays que estabelecem uniões estáveis, sem que isso esteja na lei, e que adotam crianças, formando verdadeiras famílias.

Famílias que fogem do padrão tradicional – se é que ainda existam ”famílias tradicionais”. Aliás, nesse sentido, a comunidade homossexual tem participado ativamente da grande transformação social em curso no mundo, pela qual as noções de "família" certamente serão revistas.

Eu, contudo, não tenho amigos gays interessados em adotar crianças. Mas tenho amigos gays que são pais muito dedicados a seus filhos – morando ou não com eles. E sou testemunha de relações muito positivas entre esses jovens e seus pais diferenciados.

Vejo, entretanto, um ponto no qual o tema "família homossexual" ainda esbarra: os gays são entendidos, pelas pessoas mais reacionárias e preconceituosas, como más influências; portanto, incapazes de serem bons pais e boas influências. Daí o perigo que essas pessoas enxergam na adoção e na paternidade gays: fantasiam que essas crianças serão gays desajustados.

Até aqui, nenhuma novidade, apenas mais do mesmo: o puro e infeliz preconceito.

O que me espanta é que também os pais gays tenham essa preocupação sexual, mesmo que não assumida, mas perfeitamente perceptível no alívio da descoberta do filho, por exemplo, com uma revista Playboy nas mãos ou da filha com enormes pôsteres de rapazes na porta do quarto. “Ufa: ele não é”. Percebo isso também na mídia: a preocupação com a sexualidade dos filhos está em filmes, que assisti e recomendo, como A Gaiola das Loucas (1978) ou Essa Estranha Atração (1988), além de muitos outros. Uma preocupação que certamente discutiremos em nosso grupo de estudos.

...

Pais e professores gays não precisam, e não devem, se preocupar com a possível influência da própria sexualidade sobre seus filhos ou seus alunos. Podem, sim, colaborar positivamente para transmitir noções saudáveis desta forma de sexualidade, para que mitos e tabus sejam apagados.

Só para lembrar: 90% dos adultos são heterossexuais e isso nem estimula nem desestimula um jovem gay a ser o que ele é: gay.


Jorge Alves de Lima
joralima@usp.br
originalmente publicado no http://jornalaene.blogspot.com/

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Patrick Swayze

Em alguns filmes, eu gostava mais dos vilões do que dos mocinhos. Em "Ghost - Do outro lado da vida" era assim: o amigo do protagonista era lindo (mas não valia nada). Em "Dirty Dancing - Ritmo Quente" não havia claramente o bom protagonista e o mau antagonista, mas a mocinha (Francis) tinha feito uma escolha que coincidia com a minha: Patrick Swayze. Este ator, cuja notícia de morte ouvi no rádio um pouco antes de sair de casa, protagonizou estes dois filmes. Houve uma época que eu não aguentava mais ouvir a música tema de Ghost, de tando que fora executada nas rádios.

A trilha sonora de Dirty Dance é magnífica e eu a escuto até hoje: já foi utilizada em vários comerciais diferentes e é constituída de clássicos anteriores ao filme. Fazem parte desta maravilhosa trilha sonora duas músicas que, ao que me parece, são contemporâneas ao filme, que é uma produção de 1987. A primeira, cantada por uma dupla (Bill Medley e Jennifer Warnes), é a cara da história: (I've Had) The Time Of My Life. A segunda, criada e cantada pelo próprio Patrick Swayze, fez a função de tema romântico: She's Like The Wind.

"Dirty Dancing" é o típico filme sessão da tarde. Recentemente comprei uma versão especial que inclui uns extras interessantes. O detalhe é que o DVD é frente e verso, como os antigos LP. Todavia, na minha história pessoal este filme é de suma importância. Foi a terceira vez que eu entrei num cinema e a primeira vez que eu entrei sozinho.

A linguagem do cinema chegou tarde à minha vida: aos 14 anos assistindo "Inimigo Meu", um sucesso de ficção científica escolhido pelo meu irmão mais velho, protagonizado, se bem me lembro, por Dennis Quaid. Assustei-me um pouco, pois nunca havia visto uma tela tão grande, numa sala tão grande (mais de 1.000 lugares), com um teto tão alto e um volume de som ensurdecedor para os meus padrões daquela época (estávamos no antigo Cine Marabá, hoje totalmente reformado e dividido em 5 modernas salas).

Meses depois, no calorento janeiro de 1989, numa tarde, após sair do meu trabalho de 4 horas no Banco do Brasil e sem nada para fazer com toda a liberdade que o trabalho recém me concedera, resolvi ir ao cinema. Assim, sem escolhas prévias, entre no Cine Gemini. Não foram necessários mais do que 5 minutos para que eu fosse transportado aos Estados Unidos ali dos anos 1950-1960, para dentro de uma colônia de férias bem familiar. A protagonista era uma moça saindo da adolescência (como eu) e nós dois nos apaixonamos pelo personagem de Patrick Swayze: um dançarino muito desenvolto que arrancava suspiros da platéia.

Havia os outros rapazes no filme. Um deles, muito bonitinho, inclusive, não valia grande coisa: enganava todo mundo com o jeito de estudioso e fora, na verdade, e estava envolvido no grande nó dramático da história -- uma gravidez que redundaria num aborto mal sucedido.

Era janeiro, dali a pouco eu completaria 15 anos e ainda não sabia que era-me possível apaixonar-me por um cara. O mesmo cara que, 20 anos depois, morreria em virtude de um câncer no pâncreas.

A vida e seus meandros.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009